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Set 1 • Los Ángeles

Sep 25, 2026

Antes de deixarmos Nelson, um grande amigo, Liam, fez uma oração por nós. Não pediu uma viagem sem dificuldades, nem um caminho perfeito. Pediu apenas que encontrássemos as pessoas certas, nas horas certas.

Desde então, seguimos com essa fé tranquila de que a estrada revela aquilo que nos é de merecimento. Quanto mais viajamos, mais percebemos que as grandes riquezas são os lugares e, principalmente, os encontros.

Esta é uma história sobre sincronicidade.

Maya & Mila em San Felipe, Baja California

 

O primeiro encontro

Tudo começou em San Felipe, no início do nosso capítulo Mexicano.

Na noite anterior à partida, Maya, nossa eterna "mascota" social, fez o que sempre faz: foi pedir carinho aos vizinhos da palapa ao lado. Graças a ela conhecemos Toño e Susy.

Espalhamos o mapa do México sobre a mesa e a conversa fluiu como se fôssemos velhos conhecidos. Eles nos mostraram rotas, contaram sobre lugares imperdíveis e, principalmente, alertaram sobre trechos que deveríamos evitar, especialmente algumas cidades de Sinaloa. Falaram das belezas do país, da espiritualidade do povo mexicano, da ancestralidade, das pirâmides e da herança viva da cultura Maia.

Toño e Susy são mexicanos da região de Guadalajara. Toño é um viajante apaixonado pela estrada e está quase sempre explorando o continente de moto. Havia acabado de voltar de uma expedição até o Alasca, e Susy foi encontrá-lo na Baja Califórnia para viajar juntos o último trecho antes de regressarem para casa.

Conversamos sobre o Yukon, sobre os animais do norte do Canadá e sobre essa curiosa irmandade que existe entre pessoas que escolhem viver na estrada.

Antes de nos despedirmos, trocamos nossos WhatsApps e eles fizeram um convite inesperado:

"Quando chegarem perto de Guadalajara, fiquem na casa do meu pai. No lago Chapala (o maior lago de água doce do México.)"

Na manhã seguinte, eles partiram cedo, antes que o vento e o calor dominassem o deserto. Nós seguimos outro caminho.

 

Bahía de Los Ángeles

Nosso destino era Bahía de Los Ángeles.

Fernando havia combinado um encontro com Dálio, nosso amigo dos tempos de Outward Bound Brasil. Chegamos no fim da tarde e logo avistamos o Galileo, seu catamarã. Fomos recebidos por Dalio, Brooke, Neve e Lua, além dos cães Solo, Maru e uma gatinha tão tímida que quase permaneceu invisível durante toda a nossa estadia.

Os dois dias seguintes foram um presente.

Velejamos, mergulhamos, rimos, tocamos música, conversamos durante horas e jantamos juntos na Maria depois de brincar na pequena corredeira ao final da praia. Dormimos sob um céu completamente estrelado, embalados pelo som do mar, conhecendo uma família que inspira liberdade, simplicidade e amor.

Foi Brooke quem compartilhou um texto de John Steinbeck que parece ter sido escrito para quem escolhe viajar sem controlar o tempo:

"Uma vez que uma jornada é planejada, equipada e colocada em movimento, um novo fator entra em cena e assume o comando. Uma viagem, um safári, uma exploração, é uma entidade diferente de todas as outras jornadas. Ela tem personalidade, temperamento, individualidade, singularidade. Uma jornada é uma pessoa em si mesma; não existem duas iguais.

E todos os planos, precauções, controles e tentativas de impor regras tornam-se inúteis. Depois de anos de luta, descobrimos que não somos nós que fazemos uma viagem; é a viagem que nos conduz."

 

Desde aquele dia, essa frase passou a morar dentro de Maria: "Não somos nós que fazemos uma viagem. É a viagem que nos conduz."

Temos apenas um destino claro: chegar ao Brasil em aproximadamente seis meses. Todo o resto pertence à própria viagem.

Tripulação do Galileo e do Vai Maria, todos a bordo.
Destaque para o 'Capitão' Maru, o cãozinho preto no comando do barco.

 

Escolhas invisíveis

Seguimos para La Paz.

Ali vieram as tarefas práticas: troca de óleo e filtros, limpeza da Maria, organização dos quartos e a ida ao veterinário para conseguir o certificado de saúde de Mila e Maya, necessário para embarcar no ferry.

Faltava decidir apenas uma coisa:

Qual ferry pegar?

Poderíamos desembarcar em Topolobampo, no coração de Sinaloa, ou em Mazatlán, já mais ao sul do estado. Pesquisamos horários, preços e distâncias. Escolhemos Mazatlán.

Uma decisão simples. Ou talvez não.

Quando Fernando e Miguel foram escolher seus assentos VIP, olharam para o lado e começaram a rir.

Sentados ali estavam Toño e Susy.

De todas as rotas possíveis. De todos os dias. No mesmo ferry. Na mesma cabine de cadeiras VIP.

Passei a travessia em uma pequena cápsula de descanso, enquanto as meninas viajavam no compartimento destinado aos animais. Entre um café e outro, reencontramos nossos amigos e voltamos a trocar histórias e dicas sobre os caminhos que ainda estavam por vir.

Na manhã seguinte, desembarcamos sem conseguir nos despedir. Pensei apenas: "Ainda bem que temos o WhatsApp."

Mal sabia eu que a despedida ainda não tinha chegado.

 

O milagre da Caseta

Saímos de Mazatlán pela estrada livre de pedágios (caseta em espanhol do México).

Há muito policiamento e presença militar nessa região. Em vários pontos, eles apenas perguntam de onde viemos e para onde vamos. Fernando nunca lembrava de onde estávamos vindo, e eu sempre precisava lembrá-lo. Quase nunca pedem documentos. Sentimos, curiosamente, uma presença muito mais de proteção do que de intimidação.

As rodovias 15 (livre) e 15D (pedagiada) se cruzam diversas vezes e, sem perceber, entre um podcast e outro, acabamos entrando em um trecho pedagiado da rodovia.

Chegamos à caseta.

A placa dizia que aceitavam dólares.

Só que não.

Aceitavam apenas pesos, e nós não tínhamos o suficiente. Era um pedágio caro!

Enquanto tentávamos entender como resolver a situação, o policial pediu que déssemos ré, o que não é algo simples com Maria. Começamos cuidadosamente a movimentar o carro, e então o mesmo policial começa a nos chamar de volta:

"Pueden venir! Su amigo va a pagar la caseta."

Eu e Fernando nos olhamos sem entender.

Que amigo?

Então vimos uma conhecida motocicleta parada alguns metros à frente.

Era Toño.

E, antes mesmo de processarmos o que estava acontecendo, Susy caminhava em direção à cabine e pagava nosso pedágio.

Ficamos completamente sem palavras.

Tentamos devolver o valor em dólares. Eles recusaram com um sorriso, nos deram mais algumas orientações sobre a estrada e seguiram viagem rumo a playa Chacala, perto de Puerto Vallarta.

Nós seguimos para La Manzanilla.

 

Nuestros Ángeles

Hoje eles estão algumas horas à nossa frente. Nós passaremos quatro dias em Puerto Vallarta trabalhando nos nossos cursos e depois seguiremos para a casa do pai de Toño, honrando aquele convite feito na primeira noite em San Felipe.

Não sabemos se ainda nos encontraremos nesta viagem.

Mas alguns encontros não precisam de duração para se tornarem eternos.

Desde aquele dia, Fernando e eu deixamos de chamá-los apenas de Toño e Susy.

Agora, carinhosamente, eles são Nuestros Ángeles.

Porque, às vezes, a sincronicidade não chega em forma de grandes sinais celestiais. Ela aparece como duas pessoas generosas, em uma motocicleta, exatamente na fila do pedágio onde você mais precisava de ajuda.

E, naquele instante, a oração de Liam voltou inteira ao coração: que encontremos as pessoas certas, nas horas certas, pelo caminho.

 

E deixo aqui como reflexão a segunda parte do texto de Steinbeck compartilhado por Brooke e Dalio:

"Guias turísticos, horários, reservas, tudo rigidamente planejado e considerado inevitável, acabam se despedaçando contra a personalidade da própria viagem. Somente quando isso é reconhecido é que o andarilho, levado pelo vento, pode relaxar e simplesmente deixar-se levar.

Só então as frustrações desaparecem.

Nisso, uma jornada se parece com um casamento. A maneira mais certa de errar é pensar que você está no controle."

— John Steinbeck, Travels with Charley: In Search of America

 

Sigo aqui pensando nesta polaridade entre "controlar e deixar acontecer", e como a sincronicidade habita um outro espaço, e é ali que surge a parte mais bonita da história.

E vocês? O que vocês já tentaram controlar e, ao perder ou desistir desse controle, acabaram ganhando de presente?

Carolina Ribeiro de Almeida

 

Respostas

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