Out 2 • Ligar, desligar, escolher
Paramos. Solta as cachorras. O motor esfria, e começa o ritual de montagem. Quando é só por uma noite, é mais rápido. Quando é por alguns dias, demora um pouco mais.
E quando é um dia de trabalho, precisamos da Starlink. Tira da caixa, monta a base, aponta a antena para um pedaço de céu sem árvores. Depois a mesa, a cadeira, puxa a tomada. O MacBook, a câmera, o fone de ouvido. Tudo no lugar, quase pronto. Quase. Falta uma parte fundamental do ritual: a máquina de café está montada?
Só então o dia de trabalho começa...☕️

Encontre a Starlink nas fotos...
Quem empreende sabe: o trabalho não acaba. Ele é, literalmente, interminável. O único limite real são as 24 horas de cada dia. Quando se trabalha em casa, esse limite fica perigosamente elástico, e se você ama o que faz, mais ainda. Junte a isso pessoas do mundo inteiro, eventos interessantes em outros fusos, mensagens chegando a qualquer hora, e o dia simplesmente não termina.
Há alguns anos, criei para mim uma linha de corte: 17h30. Às vezes passo uns minutos, mas fico sempre ali por perto, e raramente cruzo a linha das 18h00. Foi uma das decisões que mais me devolveram qualidade de vida. Não tanto pelas horas em si, mas pela consciência que veio com elas: tudo bem parar. Tudo bem continuar amanhã.
Na estrada, essa linha mudou de forma. Deixou de ser um horário e virou um gesto.
Aqui a conexão não é permanente. A Starlink precisa ser ligada e desligada, montada e guardada a cada parada. No começo, isso parecia uma etapa a mais entre mim e o trabalho. Miguel virou o instalador oficial da antena em poucas semanas. Acha o Norte rapidinho, só olhando para o Sol.

Hoje vejo diferente: são justamente essas etapas que protegem o meu tempo. Se dá trabalho começar, eu não começo à toa. E se começo, é para valer.
Ainda não encontrei um ritmo, mas acho que encontrei uma fórmula. Pode parecer óbvia para muitas pessoas, no entanto, pra mim não era: ao sentar, listo as prioridades e me dou entre três e quatro horas para fazer tudo o que for possível. Tem funcionado. A escassez ajuda: dá foco, uma urgência boa, uma pressão saudável. Afinal, a próxima oportunidade de ter um bom espaço e tempo de trabalho pode estar a algumas centenas de quilômetros.
E uma outra coisa curiosa: com a antena e uma bateria portátil, podemos parar e fazer uma ligação, uma videoconferência, de praticamente qualquer lugar, a qualquer momento. E já fizemos isso na beira da estrada, num mirante, no estacionamento de um supermercado e de um posto de gasolina. Mas, mesmo com essa liberdade, não paramos a todo instante. Temos organizado as conversas em dias específicos, quando fazemos uma parada mais longa num lugar com energia, segurança e alguma estrutura.

Não é porque podemos que devemos fazer algo. E talvez tenha sido aqui que entendi melhor uma escolha que já vinha de antes da viagem.
Quem nos acompanha de perto sabe que nossa presença nas redes sociais sempre foi errática. Feita por nós mesmos, sem estratégia, sem uma real "presença digital". Carolina e eu sempre tivemos uma resistência enorme a "postar". No fundo, nossa percepção é que, no balanço geral, as redes fazem mais mal do que bem para a sociedade.
Sabemos que, para algumas pessoas, elas funcionam: geram oportunidades, aproximam, criam visibilidade. Não é isso que questionamos. O que nos incomoda é o todo. A atenção que encolhe a cada vídeo curto e dopamínico. A ansiedade que cresce de forma alarmante no coletivo. E um ambiente de diálogo que vai ficando cada vez menor, mais monossilábico, mais ácido, mais árido, a ponto de abalar as bases da conversa pública de países inteiros.
Por isso, não estamos postando nada desta viagem no Instagram, LinkedIn, Facebook, etc. Em vez disso, criamos este blog e convidamos as pessoas mais próximas a estarem conosco. Não sei se "nos seguir" é a expressão certa. Seguir é palavra de rede social. O que buscamos é companhia e afeto. Para documentar o caminho (e, a bem da verdade, para acalmar nossas mães, irmãs e irmãos), começamos a usar também o Polarsteps, uma indicação da queridíssima família Earnshaw, que o usou no seu ano sabático viajando pelo Mediterrâneo.
Olhando para trás, vemos que o que fez nosso negócio prosperar não tem nada a ver com postagens nas redes. Tem tudo a ver com pessoas e conexões reais. A superficialidade e a velocidade das redes socias são justamente o oposto do que buscamos: a profundidade e o bom ritmo de uma conversa.
E foi surpreendente descobrir que dá para viver sem as redes. O mundo não acaba, o trabalho não para, as pessoas que nos procuram continuam nos encontrando e vice-versa. E, sem a obrigação de postar, de criar conteúdo, de estar sempre visível, ou "presente digitalmente", saiu dos meus ombros um peso que eu nem sabia que carregava.
As barreiras que escolhemos (um horário, um setup, uma conexão que decidimos não ligar) não nos tiram nada. Na verdade, elas protegem. Devolvem tempo para a família, para observar, pensar, cozinhar, ler ou praticar um esporte. Protegem o tempo para o lazer e para o ócio, que também é parte fundamental da vida. E abrem espaço para ver o Sol se pôr sem pressa.

Espero que estas reflexões sejam úteis de alguma forma, no ritmo e no contexto de cada um.
E queria muito ouvir quem está percebendo algo parecido, ou algo muito diferente. Se você também sente esse peso das redes, ou vê um lado positivo que eu não consigo enxergar, escreva nos comentários ou responda esta mensagem. Com calma, tempo e espaço, a conversa continua.
Fernando Murray Loureiro
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