Abr 1 • Colocando as coisas no lugar

Finalmente estacionamos nosso motorhome no quintal de casa: um Thor Majestic 23A. É uma sensação curiosa pois ainda não partimos, mas, de alguma forma, já começamos.
O carro é grande, ocupa um espaço que antes era só passagem, e agora tem uma presença difícil de ignorar. Estamos naquele momento em que a gente olha, entra, abre portas, testa gavetas, posições, movimentos, e vai tentando entender não só onde as coisas vão, mas como vamos habitar este espaço.
Escolher uma das inúmeras opções de carros e combinações para uma viagem assim é uma equação complicada que envolve custo, benefício, depreciação, praticidade, amenidades, reparos, consumo de combustível e outras variáveis. E além disso tem emoções que não aparecem na planilha… Enfim, levou um tempo até encontrarmos a opção que fez sentido para nós, cabia no bolso e nos deixou confortáveis e confiantes o suficiente.
Após muita pesquisa e diversas opções, decidimos pela Cruise Canada, a maior operadora de aluguel de motorhomes da América do Norte. A decisão foi muito feliz: encontramos um enorme cuidado que nos ajudou a transformar algo que no começo era tenso e complexo em um processo tranquilo e sereno.
O carro estava em Vancouver, e as datas coincidiram para realizar o encontro de uma turma online e dois workshops presenciais na UBC (Universidade da Colúmbia Britânica) na mesma semana. E assim conciliamos a viagem com o trabalho que tanto gostamos de fazer. Habitamos nossa nova casa e já começamos a perceber como essa vida nômade digital pode funcionar..😜

E falando em nomadismo, estamos muito animados com as possibilidades que estão surgindo: além de encontrar diversos amigos ao longo do caminho, estamos começando a organizar a oferta de workshops de introdução em Estruturas Libertadoras em algumas cidades nos EUA e México.
Em nossa volta pra casa aproveitamos a distância de Vancouver até Nelson (660km) para já começar a pegar o jeito de como dirigir este carro. No início é bem tenso, especialmente na cidade, mas aos poucos vai ficando interessante. A atenção para antecipar os movimentos é muito importante: curvas, freadas, sinalizar e dar passagem.
Apesar de quase 9 horas na estrada, poder parar e ‘descansar em casa’ antes de seguir viagem é muito legal!

Agora, com o carro no quintal, começamos a habitar de verdade.
Entrar, sair, reorganizar, descobrir o que cabe e, talvez mais difícil, o que não cabe.
Mila e Maya circulam por perto, observando com curiosidade. Parece que já perceberam que tem algo diferente acontecendo. Como se estivessem tentando entender essa nova versão de “arrumar as malas”. Pra quem conhece a expressão "mais perdido que cachorro em dia de mudança", é um pouco o que elas vivem... tadinhas.
E falando em colocar as coisas no lugar, nossos mapas chegaram: Oeste dos EUA, México, América Central e América do Sul. Sempre gostamos de mapas e serão fundamentais para decidirmos juntos nossos caminhos.

Já em casa, na parede, um Calendário vai contando os dias. Ainda temos dois meses para organizar e colocar quase tudo no lugar: o que entra nos armários do motorhome, o que vamos guardar, o que vamos doar, as ideias que surgem, os sentimentos.

Ao mesmo tempo, tem algo que escapa. Os mapas ajudam, mas não resolvem. As listas organizam, mas não antecipam. E talvez parte da travessia esteja justamente aí.
Por enquanto, seguimos assim: colocando as coisas no lugar, e abrindo espaço para o que ainda não sabemos.

Fernando Murray Loureiro
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