Mar 2 • A viagem vai tomando forma - mais leve
Nos últimos meses, venho revisitando uma pergunta simples, mas difícil de responder com honestidade: do que eu realmente preciso?
Ela não apareceu de uma vez. Foi surgindo aos poucos, quase sem aviso, no meio de decisões práticas: o que levar, o que deixar, o que vender, o que doar, o que cabe e o que não cabe.
Eu achava que precisava de uma estrutura parruda para trabalhar bem. Eram dois monitores grandes (27 e 24" para os mais técnicos), um desktop Mac Pro, câmera de vídeo externa e microfone profissional num braço articulado, mesa elevada, cadeira especial: uma confortável estação montada com cuidado ao longo dos anos. Hoje, tudo isso cabe em uma mochila: MacBook Pro 16” acompanhado de um monitor portátil e leve, um teclado e câmera externa com microfone embutido. E o mais curioso, ou talvez o mais revelador, é que o conforto continua o mesmo. Só que agora acompanhado de algo mais: leveza.

A mesma reflexão começou a aparecer em outros cantos da vida prática como nas roupas, por exemplo. Antes de uma viagem recente de 45 dias que passaria por cinco países, atravessando tudo de avião, trem e ônibus, eu parei para pensar no que realmente precisaria levar. Reduzi ao máximo. Ainda assim, na volta, ficou a sensação de que ainda dava para levar menos. Como se existisse um hábito silencioso de sempre colocar “um pouco a mais”, por garantia. E, no fim, esse “a mais” não fez falta.

Agora, olhando para os próximos meses que antecedem a viagem, essa pergunta começa a crescer. Se já foi possível reduzir o equipamento de trabalho a uma mochila, e perceber que menos roupa ainda teria sido suficiente, o que acontece quando essa lógica encontra uma casa inteira? O espaço do motorhome é menor, sem dúvida. Mas, ao mesmo tempo, tudo ao redor se expande.
Talvez não seja exatamente uma troca entre menos e mais, e sim uma nova percepção do espaço. Talvez o mais importante nisso tudo não seja a redução em si, mas o que se revela quando se reduz.
Aos poucos, quando essas coisas saem de cena, vai ficando mais claro que muitas das coisas que pareciam essenciais eram, na verdade, hábitos. Confortos aprendidos. Referências que fui acumulando sem perceber.
Não tenho uma resposta definitiva sobre o que é essencial, mas certamente uma atenção diferente ao que levo comigo. Menos como acúmulo, mais como escolha. Menos por garantia, mais por necessidade real.
E no meio desse processo uma ideia simples começa a ganhar forma: abrir a casa, convidar os amigos e fazer as coisas circularem. O que chama-se aqui no Canadá de Yard Sale, em geral realizado na Primavera. Além de um animado reencontro, será uma forma de reduzir e de compartilhar, de transformar o que estava parado em algo vivo outra vez. Que esses objetos encontrem novas mãos, novos usos, criem novas histórias. E que, ao mesmo tempo, ajudem a financiar a Travessia que vem pela frente.
Eliminando os excessos e reduzindo para o que é necessário e essencial, a viagem vai tomando forma - mais leve.


Fernando Murray Loureiro
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